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Quando a lógica vira armadilha: o mito de Obá e Ogum e o esgotamento do Ego

No meu tempo de experiência no consultório, percebi que esse cenário se repete. Indivíduos que alcançaram o topo de suas jornadas profissionais através do pragmatismo, do cálculo e do controle rigoroso, mentes brilhantes capazes de solucionar desafios corporativos complexos em minutos, se veem subitamente paralisados diante do desgaste de um casamento ou de uma crise existencial profunda.

Parece que a ferramenta que sempre garantiu o sucesso deles falha de forma gritante nesses momentos: a lógica pura passa a operar como uma armadilha exaustiva.

Diante do sofrimento psicológico, o Ego hiper-racionalizado tenta "resolver" questões do afeto como quem ajusta uma planilha objetiva. O resultado inevitável é a paralisia, o cansaço crônico e um profundo sentimento de impotência.


A resistência pela racionalização

A intelectualidade é um dos mais sofisticados mecanismos de defesa da psique. Quando a dor emocional ameaça transbordar, o indivíduo pode se refugiar no mundo mais seguro e controlado das ideias objetivas. Ele lê livros de Psicologia, decodifica teorias e consegue explicar perfeitamente a raiz de seus problemas sob uma ótica puramente racional. Porém, compreender não é elaborar.

A racionalização excessiva ergue uma barreira rígida que impede o contato real com o sentimento. O sujeito sabe o que tem, mas não sente o que sabe. Vive desconectado de uma parte crucial do todo que é aquela experiência de vida, que é acessada pelo sentir e depende de nomear o que se sente. O indivíduo, desconectado de si, tenta dobrar a crise emocional na base da insistência e da força mental, ignorando que está travando uma guerra civil interna: o Ego tentando subjugar o inconsciente através da pura repressão.


O Itan de Obá e Ogum: o limite da força bruta

A sabedoria mítica costuma oferecer respostas onde a lógica empaca. Na tradição iorubá, a batalha entre Obá e Ogum ilustra com precisão cirúrgica o colapso da força reativa diante da estratégia sutil.

No mito, Obá, a destemida guerreira, divindade das águas doces revoltas e conhecida por seu vigor físico inigualável, desafiou Ogum para uma luta corporal. Sabendo que enfrentar a fúria direta de Obá apenas com os músculos seria um erro, o guerreiro recuou. Ele não confiou unicamente em suas armas; buscou o oráculo de Ifá — a conexão com a sabedoria transpessoal.

Orientado pelo Sagrado, Ogum espalhou uma pasta viscosa de milho e quiabo em um dos cantos do terreno. No início do combate, Obá avançou com toda a sua potência reativa. Ogum apenas contornou o ataque e recuou de propósito, atraindo-a para a área escorregadia. Ao pisar ali, Obá perdeu o equilíbrio e caiu. Foi imobilizada por Ogum, quem venceu a batalha.


O confronto que adoece e o contorno que cura

A tentativa de vencer os impasses existenciais — especialmente os relacionamentos — através da insistência cega ou do confronto direto é uma ilusão. Quando um casal ou um líder adota a postura da força bruta, restam apenas dois desfechos destrutivos: ou o outro reage no confronto aberto, perpetuando a guerra, ou adoece na submissão absoluta. Ambos os caminhos anulam o vínculo.

A estratégia de Ogum não foi um cálculo lógico do Ego, mas sim nasceu do diálogo com o invisível.

Para o paciente hiper-racionalizado, o movimento é semelhante. É preciso suspender o controle mental e reatar o diálogo com o simbólico — o "oráculo" do próprio inconsciente. Isso exige aceitar o recuo, abrir mão da reatividade e compreender que a verdadeira transformação depende de flexibilidade e do contato profundo consigo próprio, não da tirania da vontade.


O manejo clínico e o símbolo

A psicoterapia analítica não oferece ferramentas de controle comportamental ou respostas fáceis. Diante de uma mente enrijecida pela lógica, o papel do terapeuta é introduzir a dimensão do símbolo e amparar a reconexão do indivíduo consigo próprio, tateando suas intuições e vivências emocionais.

Ao estabelecer essa investigação de aspectos próprios para além do intelecto, e também dialogar sobre mito coletivo que reflete aquela experiência pessoal, o indivíduo amplia o conhecimento sobre si e pode perceber que a dor vivida à nível pessoal faz parte de uma narrativa transpessoal. 

A psique, então, se movimenta. Antes empacada no confronto direto com o sintoma, ela passa a orbitar a imagem em um sentido circunambulatório de elaboração. O contorno substitui o desgaste.

Afinal, a verdadeira autonomia não nasce da repressão do Ego sobre a Sombra, mas da sabedoria estratégica de dialogar com as forças que nos habitam.


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