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As produções oníricas e o sutil limiar entre o amparo e a revolução da alma

Você conhece a deusa Pele? Eu não a conhecia até que ela se fizesse presente em um de meus sonhos. E a experiência foi, sem exagero, avassaladora. Até então, eu nunca havia vivenciado uma produção onírica tão vívida e carregada de contorno. Lembro-me de despertar sentindo o corpo vibrar; a força daquela imagem havia tocado profundamente a minha dinâmica psicológica.

​Como nos ensina Carl G. Jung, a manifestação de uma imagem arquetípica opera dessa maneira: ela emerge inundada de afeto. O arquétipo, afinal, é uma estrutura viva do inconsciente repleta de numen — aquele brilho ou energia que evoca o sagrado. Vivenciar a manifestação dessa energia psíquica é, em última análise, uma experiência transcendental.

Além da intensidade emocional, há um marcador claro que atesta a natureza arquetípica de uma imagem: quando, ao investigarmos os elementos que emergiram no sonho, percebemos que se trata de um conteúdo pertencente ao inconsciente coletivo.

Além da intensidade emocional, há um marcador claro que atesta a natureza arquetípica de uma imagem: quando, ao investigarmos os elementos que emergiram no sonho, percebemos que se trata de um conteúdo pertencente ao inconsciente coletivo.

​Em outras palavras, não se trata de uma fabricação da mente egóica, tampouco de um fragmento da história individual do sonhador. Muitas vezes, é um símbolo do qual nunca se ouviu falar, mas que já habita a herança humana há milênios, representado em pinturas, esculturas e mitologias. Como explica Jung, os conteúdos do inconsciente coletivo expressam-se tanto nos mitos quanto nas grandes produções artísticas da humanidade (OC, 9/1, p.90).

​Essa imagem traz consigo o seu próprio mito, suas origens e seus feitos. Tratando-se de divindades, carrega rituais e cultos de povos passados ou presentes.

​Foi precisamente o que me aconteceu. Sem que houvesse uma busca consciente, essa imagem arquetípica simplesmente constelou em meu sonho — um lembrete vívido de que os arquétipos gozam de considerável autonomia na psique. Ela manifestou-se ao lado de um vulcão, o que me permitiu, através da pesquisa amplificadora, reconhecer sua identidade.

​Pele é a deusa do fogo e dos vulcões no Havaí, cultuada desde a colonização polinésia. Ela corporifica, entre tantos aspectos, a potência da transmutação: a destruição e a criação coexistindo na força vulcânica.


​Guardo profunda reverência a essa manifestação, pois ela foi o motor de um importante despertar em minha consciência, auxiliando-me a transmutar dinâmicas essenciais naquele período. Pude reduzir a cinzas o que precisava findar, abrindo solo fértil para o novo. E esse processo deu-se de forma integrada, pois uma força profunda da psique operava como guia interno da minha jornada.
​
Na época, essa experiência preencheu diversas sessões da minha própria psicoterapia — processo que sempre considerei indispensável para o refinamento do autoconhecimento e do desenvolvimento pessoal. ​E você? Já vivenciou um sonho cuja profundidade arquetípica transformou o seu olhar sobre si mesma?


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Referências: JUNG, C. G. Os arquétipos do inconsciente coletivo. O/C, v. 9/1. 10. Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.
JUNG, C.G. O homem e seus símbolos. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
Imagem: Google

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